 Ecografista explica as inúmeras transformações do feto ao longo dos nove meses de gestação, até estar apto a viver fora do útero.
O médico ecografista Raul Moreira Neto, recentemente, palestrou em Bento Gonçalves oportunizando o esclarecimento de dúvidas quanto ao desenvolvimento do bebê no útero materno às inúmeras gestantes e mulheres que pretendem ter filhos. Formado em medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e especialista em ultrassom geral e ginecobstétricia, Neto explanou as principais características de cada fase. Confira.
Jornal SerraNossa – Até há bem pouco tempo afirmava-se que o psiquismo humano só entrava em atividade no momento do nascimento do bebê, altura em que se cortava o cordão umbilical. No entanto, com o avanço tecnológico percebeu-se que a vida uterina é muito mais que estar num sítio paradisíaco e silencioso. Ele é, realmente, rico em experiências?
Raul Moreira Neto – Com o surgimento da ecografia em 1960, foi comprovado que o útero não é um local tranquilo. Lá, o bebê sente cheiros e gostos – doce e amargo. No primeiro esboça uma expressão de sorriso, se agita. No amargo, se contorce, retrai. Na barriga da mãe ele chora e sonha, embora não se saiba exatamente o que representa o choro do bebê. Supõe-se que durante o sono “rem” (rapid eye movement), os sonhos relatem experiências que a mãe vivenciou durante o dia (chutes, sons externos).
SerraNossa – Então, a vida psíquica do bebê não se inicia com o nascimento?
Neto– Existem teorias que a vida começa na fertilização, que ele já tem a consciência que é um ser vivo. Estima-se que inicia na terceira ou quarta semana, pois o embrião se “segurar na vida”, ou seja, vai fazer de tudo para que continue evoluindo.
SerraNossa– Então, como você se posiciona quanto às pesquisas com células tronco?
Neto– Essa questão já rende outro tema, um tanto complexo, afinal são pesquisas dignas de apreço.
SerraNossa -Mães infelizes e deprimidas têm maior probabilidade de ter partos prematuros ou bebês com peso mais baixo ao nascer?
Neto– Estresses do dia-a-dia são aceitos – preocupação pelo atraso de uma conta ou com assuntos relacionados ao outro filho , o que a mãe não pode ser é estressada o tempo todo. Absorvendo esta situação, os batimentos cardíacos do bebê aceleram, ele se movimenta mais. Com o tempo ele se desgasta e começa perder peso, retardando o desenvolvimento. Reações repentinas, como a de um susto é bom para o bebê, pois ele precisa vivenciar estas adrenalinas.
SerraNossa- Ainda há mães que não aceitam a gravidez e pensam em abortar. O feto tem consciência que esta sendo abortado?
Neto– Se observar o embrião como um ser vivo, sim, se esta tirando uma nova vida do útero materno. A partir da 12ª semana, o feto já sente dor. Tirar por tirar, porque a mulher não quer ser mãe, efetivamente não concordo, ao contrário daquelas que se dispõem a ação para realizar uma pesquisa. Muitas abortam e ficam com “restos” na barriga, ocasionando inúmeras complicações.
SerraNossa– O que provoca a morte do bebê ainda no útero da mãe?
Neto– Existem duas etapas: a morte embrionária ocorrida em até 10 semanas, considerada a parte mais delicada da gestação. Quase metade das mulheres perdem o feto na menstruação sem saber que estavam grávidas. A segunda é relacionada ao estilo de vida da mãe – se fuma, se possui diabetes, se é hipertensa, se usa drogas – o que circunstancia a morte fetal, se fazendo necessário a interferência cirúrgica.
SerraNossa– Quando o rosto do bebê fanha formato humano? Como é antes dessa formação?
Neto– Os olhos do bebê iniciam bem do lado juntando-se com o passar da gestação. Até a 12ª semana, não aconselhamos a mãe observá-lo em 3D, pois o rosto ainda está em formação e as características não são predominantes, embora o corpo já esteja completo. De 25 a 26 semanas, o bebê está com as feições definidas.
SerraNossa– No oitavo mês, o bebê já abre os olhos. O que ele realmente enxerga? E escuta? O que sente?
Neto– O feto tem apenas noção de luminosidade. Não enxerga as ações dentro do útero, pois o nervo ótico, o principal da visão, não está completamente formado. Evidentemente, isso ocorre somente quando for estimulado pela claridade, ou seja, ao nascer. O último sentido a ser incitado é a audição, que já está formada com 26/28 semanas. No útero da mãe ele já distingue vozes masculinas e femininas embora a voz chegue muito mais baixa. Por isso, e demasiadamente importante para o bebê ouvir e o pai participar efetivamente da gravidez, de forma que o neném se acostume com sua presença.
SerraNossa - Há algum tempo, não era aconselhado que mulheres se submetessem muito tempo expostas às ecografias, pois poderia “prejudicar” o feto. Hoje, com as tecnologias existentes, as mães ainda precisam se preocupar com isso?
Neto– Sempre foram realizados estudos para observar se a ecografia fazia mal ou não. Até hoje, não há registros de casos que o bebê fora prejudicado pelo procedimento, que dura cerca de 10 a 15 minutos. O ultrassom emite um som inaudível por cerca de 30 segundos e o recebimento das informações perduram por nove minutos e meio.
SerraNossa– Pra você, não há vida num feto anencéfalo?
Neto– Não, pois não há condições dele se desenvolver fora do útero. Praticamente 99,9% morre logo ao sair do útero. Caso se desenvolva, terá sérios problemas para o resto da vida.
SerraNossa– Pesquisas apontam que as experiências vividas no útero ficam gravadas na memória da criança e que essas colaboram significativamente para o desenvolvimento de personalidade do bebê. É verdade?
Neto– Mães que vivenciaram uma gravidez conturbada têm a maior probabilidade de dar a luz a bebês que sentem mais cólicas e choram sem motivo aparente, influenciando até os primeiros anos de aprendizado.
SerraNossa– As contrações uterinas também são sentidas pelo bebê? Nestes momentos, o bebê está dormindo?
Neto– As dores do nascimento pelo parto normal são sentidas mãe e pelo neném. O útero aperta ele de uma forma intensa para poder expulsá-lo. Porém, essa é uma importante experiência para ser carregada no inconsciente. As contrações principal característica do nascimento natural, provocam a liberação da ocitocina, um hormônio que cientistas acreditam que desempenha um papel fundamental no comportamento das mães, bloqueando a lembrança daquela dor. Estudiosos afirmam que nenhuma mulher conseguiria sobreviver com a memória da dor do parto. Fonte: Jornal SerraNossa |